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A Geografia e o papel do espaço geográfico nas sociedades humanas.

   Estudar um país do ponto de vista geográfico é sempre um grande desafio. Até porque já passou da hora de os estudos geográficos serem mais explicativos e menos descritivos. A Geografia ainda padece do mal do localizacionismo, ao trabalhar com informações como onde fica o quê ou o que há num local qualquer. Essa geografia é insuficiente, urna vez que desperdiça seu potencial de analisar criticamente os problemas contemporâneos. Por outro lado, não basta acrescentar a uma geografia "tradicional" um discurso mais elaborado, com temas da atualidade, históricos, políticos ou econômicos, sem considerar o ponto de vista do espaço geográfico. Tampouco dessa maneira se estará produzindo a Geografia que desejamos.

   Como qualquer disciplina, a Geografia deve partir de seu objeto de estudo — no caso, o espaço geográfico — para oferecer elementos que colaborem no entendimento de uma realidade mais ampla. Somente com o uso de instrumentos teóricos adequados é possível chegar-se análise e à interpretação global dos fenômenos.

   As relações entre o espaço geográfico e a sociedade, entre o global e o local, entre o moderno e o tradicional, por exemplo, são aspectos indispensáveis para a elaboração de uma Geografia que não seja meramente descritiva ou de localização. Vamos verificar a seguir as ferramentas teóricas que nos possibilitam refletir de forma aprofundada sobre a Geografia do Brasil.

   A vida contemporânea passa por profunda e acelerada reestruturação: novos países surgem, outros deixam de existir; verifica-se uma maior integração econômica mundial, com o acesso a novas tecnologias produtivas, de comunicação e de informação; mudanças nas relações políticas, até há pouco impensáveis, estão ocorrendo entre as nações. Quase todos os cantos do planeta são atingidos por um processo que os vincula a um destino comum.

   Nosso país não foge à regra. Todavia, e é preciso que se dê muito destaque a isso, as modificações desenvolvem-se de forma desigual sob todos os pontos de vista. Em especial, geograficamente. Diante desse cenário extremamente complexo e inédito para a humanidade, é preciso um modo elaborado e diferente de ver e pensar o mundo, no qual a Geografia não só tem importância, corno também fornece uma poderosa e reveladora perspectiva crítica.

   Esse ponto de vista analítico só será possível por meio de uma Geografia renovada, teorlcaniente consistente, que encare o espaço geográfico como uma dimensão fundamental da vida das sociedades, e não apenas como palco ou cenário. Isso requer idéias e noções mais precisas, entre as quais a principal é a de espaço geográfico.

O espaço geográfico

   Definir o espaço geográfico como o conjunto dos elementos naturais e dos objetos humanos sobre a superfície terrestre é um bom começo. Mas só isso não é suficiente, pois trata-se apenas de uma descrição do objeto de estudo da Geografia.

   Durante muito tempo predominou a noção de espaço absoluto. Com algumas variações, essa idéia está presente, por exemplo, na filosofia de Descartes (1596-1650), na de Kant (1724-1804) e na física de Newton (1642-1726), além de ser a mais comum entre a maioria das pessoas. Segundo ela, o espaço é uma extensão absoluta que contém todas as coisas do universo. Constitui uma categoria preexistente a todas as coisas, na medida em que os elementos da natureza e os objetos humanos ocupam o espaço, estão no espaço. Nessa perspectiva, ele é apenas palco dos acontecimentos e das intervenções humanas.

   Por ser difícil, do ponto de vista dessa lógica, falar em espaço produzido, um espaço humano e econômico — afinal, como palco, ele sempre é externo à sociedade —, a chamada Geografia renovada abriu mão da noção de espaço absoluto e adotou a de espaço relativo. Segundo essa concepção que encontra respaldo, por exemplo, na filosofia de Leibniz (1646-17 16) e na física de Einstein (1879-1955) , o espaço não é uma extensão preexistente, mas algo constituído pelas coisas; o valor de cada elemento dá-se na relação com os outros elementos. No campo da Geografia, especificamente, trabalhar com a noção de espaço relativo nos leva a entender os elementos naturais e os objetos humanos como constitutivos do espaço geográfico. Portanto, uma cidade ou uma montanha não estão no espaço, elas são espaço geográfico.

   A partir da noção de espaço relativo, é possível pensar em um espaço produzido, em um espaço humano. A principal decorrência dessa elaboração conceitual é que o espaço geográfico toma-se o espaço construído pelas sociedades humanas, conseqüentemente um espaço social. Ele é parte concreta de uma sociedade ou, dito de outra forma, a dimensão espacial da sociedade. Desse modo, não é externo, não é palco, e sim elemento componente da sociedade, como as pessoas, a cultura, a economia, a história, a política, a estrutura jurídica e outros.

   Ainda que possa soar estranho, compreender o espaço geográfico como elemento constitutivo das sociedades abre uma via extremamente rica e, a nosso ver, indispensável para o entendimento da realidade. Estudar a realidade social contemporânea desprezando o ponto de vista geográfico é tratar as sociedades como abstratas e imaginárias, como um "invertebrado", um corpo que não tem onde se sustentar.

O espaço geográfico como componente da sociedade

   Vimos que o uso do espaço geográfico pelo ser humano faz dele componente da sociedade. Organizando-se em sociedade, os seres humanos ordenam também o espaço geográfico —constituindo um quadro de vida onde se desenvolvem as relações sociais.

   E preciso ressaltar, no entanto, que as relações sociais se dão no espaço geográfico e dependem em boa medida dele para que elas aconteçam é necessário lidar com a distância geografica. Na opinião do geógrafo Jacques Lévy, a distância é o elemento central do espaço geográfico. Quando falamos em distância não estamos nos referindo apenas ao sentido da geometria euclídiana (metros, quilômetros, etc.), mas a uma dimensão mais ampla. inicialmente, o que vale destacar é que qualquer relação social, para se realizar, tem em primeiro lugar de percorrer ou diminuir as distâncias. Dependendo da eficiência da gestão da distância, os membros de uma sociedade podem manter mais ou menos interações, fator decisivo para o destino de qualquer grupo social.

   Ao longo da história, as sociedades, apesar das enormes diferenças entre si, vêm transformando o espaço geográfico em um conjunto de objetos geográficos com a finalidade básica de gerir as distâncias geográficas, construir residências e produzir bens — três formas de uso do espaço. E aqui vale precisar a expressão objeto geográfico como componente do espaço que tem uma finalidade, que serve para alguma coisa. Por exemplo: uma estrada apresenta uma finalidade clara ligada à gerência da distância geográfica — ser via de transporte —, determinada antes de sua construção. Já uma casa tem finalidade de abrigo. Ora, só as coisas feitas pelo ser humano têm objetivo, pois são produzidas com alguma intenção predeterminada. Dessa forma, os elementos da natureza não são objetos geográficos, pois não possuem uma finalidade em si mesmos. Afinal, qual a finalidade de uma montanha ou de um rio, por exemplo?

   Nossa argumentação, no entanto, não se esgota aqui.

   Projetando-se na natureza, o ser humano atribui aos elementos naturais do espaço objetivos e finalidades que, na sua origem, eles não tinham. Assim, um rio transforma-se em via de transporte e fonte de alimentos, passando a ser visto e usado segundo essas finalidades. Uma montanha pode transformar-se em local sagrado e cultuado, existindo com esse propósito para determinado povo. Isso não é coisa dos antigos apenas. As sociedades modernas, mais do que quaisquer outras, deram objetivos à natureza. Boa parte dos elementos e conjuntos naturais estão nas contabilidades econômicas e projetos dos Estados e das empresas como recursos naturais. Um exemplo interessante é o caso do petróleo. Alguns países conseguem empréstimos internacionais — o México, por exemplo —, dando como garantia suas reservas conhecidas de petróleo, que, embora sejam natureza intocada, já pertencem ao fluxo econômico do país. Nesse sentido a natureza foi humanizada, e seus elementos, transformados em objetos geográficos.

   Podemos definir o espaço geográfico como um conjunto de objetos geográficos — elementos naturais humanizados e obras humanas — com determinadas finalidades dadas pelo ser humano. Esses objetivos são conteúdos sociais inseparáveis da dimensão material dos objetos. Como diz o geógrafo Milton Santos, "o espaço geográfico é a configuração territorial dos objetos geográficos mais o seu conteúdo social, a vida que lhes dá sentido e os anima".

   Vejamos mais exemplos. Um edifício, do ponto de vista físico, é só um edifício, mas adquire conteúdo quando usado, por exemplo, como escola, fábrica ou residência. Uma floresta equatorial como a Amazônia sofre uma transformação geográfica quando parte do território tem seu conteúdo social alterado, transformando-se em reserva indígena. Ainda que não tenha ocorrido modificação alguma na paisagem, em relação ao uso, ao destino, ao conteúdo social, esse segmento do espaço geográfico foi profundamente alterado.

   Há uma longa tradição entre pensadores e artistas de nunca considerar as formas materiais como coisas vazias, sem conteúdo. Assim, se o espaço geográfico é o conjunto dos objetos geográficos e também a relação que existe entre eles, podemos dizer que a sociedade está incorporada no espaço. Ou que o espaço geográfico é a dimensão espacial da sociedade. Ou, ainda, para voltarmos ao início: o espaço geográfico é um componente social.

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